Da Redação
Desde que o Supremo Tribunal Federal considerou inconstitucional a obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão de jornalista, uma onda de protestos e discussões tomou o país. Para colaborar com essas discussões a Apijor vai publicar a partir de hoje uma série de entrevistas com estudantes e professores de diversas faculdades de jornalismo do país e jornalistas recém-formados.
Para iniciar nossa série, entrevistamos a jornalista recém formada pela Universidade Estadual Paulista, Unesp, e membro da comunidade do Portal do Autor, Juliane Cintra de Oliveira.
Durante a graduação, Juliane participou de diversos projetos envolvendo a temática do jornalismo cidadão e projetos cujos objetivos eram educar para a cidadania e promover a defesa dos direitos humanos.
Autor: Como você recebeu a decisão do Supremo Tribunal Federal de que a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista fere a Constituição Federal?
Juliane Cintra: Bom pra mim foi um duro golpe, ainda mais se considerar a minha atual situação de recém graduada. A colocação no mercado de trabalho já estava esbarrando em muitas propostas que quebravam a regulamentação da categoria, como por exemplo salários abaixo do piso, salários não condizentes com as horas trabalhadas e até me ofereceram a possibilidade de assinar como responsável por um jornal sem participar de nenhuma etapa da produção do mesmo... Infelizmente, esta é uma prática normal, que ainda não conhecia.
Sinto agora que estou à mercê do mercado que passará a gerir as relações empregatícias dos jornalistas. Trocando em miúdos, vai prevalecer o lucro, em detrimento da qualidade, certamente. Que isto acontecia antes não questiono, a grande problemática é que hoje não temos nenhuma garantia, nenhum filtro que assegure o mínimo de produção adequada de informações, tampouco nossos direitos, enquanto profissionais.
Nós jornalistas, hoje, somos um amontoado e não mais categoria!
Autor: Muitos alunos em todo o país estão se mobilizando para protestar e alguns movimentos pedem até a saída do ministro Gilmar Mendes do STF. Como você vê esses protestos? Acha válido, ou fora de propósito porque deveriam ter ocorrido antes?
Juliane: A água bateu e o pessoal quer se mexer agora! Contudo, a discussão sobre a obrigatoriedade do diploma é uma temática já existente junto aos movimentos sociais, inclusive, os movimentos estudantis, há alguns anos. Mesmo assim, o debate era confuso, inconsistente, o que acabou por esvaziá-lo. Deveria ter vindo antes? Sim. Mas, ainda é tempo, afinal, apesar do Supremo ser a instância máxima de deliberação e a questão ter sido vinculada à constituição, acredito no poder de mobilização, desde que se obtenha apoio da sociedade como um todo, porque democracia é o governo do povo para e pelo povo, nós decidimos o que queremos!
Autor: Como vê o futuro? O mercado de jornalismo pode ser modificado com a entrada de profissionais não diplomados como jornalistas?
Juliane: Com certeza! Pode ser modificado não, já foi. Já encontro uma série de vagas nas quais as empresas abrem mão do diploma e oferecem salários medíocres! No que tange à qualidade, acredito que encontraremos mais do mesmo aos montes. Inovação, experimentalismo, estudos sobre novas formas de comunicar e linguagens apropriadas, entre outros, continuarão a ser feitos, mas longe de todos, em universidades sérias. Entretanto, não encontrarão espaço. A imprensa já deslocada da sociedade tende a abrir um abismo entre a sua produção e as reais necessidades das pessoas.
Autor: Se soubesse que o diploma cairia, teria feito faculdade de jornalismo? Por quê?
Juliane: Nossa, essa é uma pergunta difícil... Não sei fazer outra coisa que não jornalismo, me satisfaço com tal prática plenamente. Mas talvez tenha que optar por outra profissão mesmo, já que a colocação ficou ainda mais complicada e o reconhecimento da qualidade foi ao mais baixo nível. Praticamente, pensando na dimensão econômica da vida - já que não nasci em berço de ouro – sim. Mas como não avalio as coisas só por este âmbito, teria feito jornalismo apesar da queda da obrigatoriedade, pela paixão à profissão, por acreditar no seu poder de transformação social e empoderamento quando ele está a serviço do povo.
Autor: Quem perde e quem ganha com essa decisão do STF?
Juliane: Quem perde? O povo brasileiro e os próprios jornalistas enquanto categoria. Quem ganha? O empresariado da comunicação. É importante que se diga que o exercício do jornalismo está intimamente vinculado à construção da identidade de uma nação, item de dominação fundamental para aqueles que têm interesse em negar a pluralidade e a capacidade combativa de nosso povo.