Portal do Autor: Você se formou recentemente em jornalismo, o que a motivou a fazer tal faculdade?
Jussara Nunes: Bem, eu sempre gostei de ler e escrever - requisitos básicos para a profissão. Sempre quis fazer comunicação, ou algo ligado a artes. Pensei em Artes Plásticas, mas desisti porque vi que não precisava fazer uma faculdade para aprender a pintar ou desenhar. Pensei em Publicidade, mas aos dezenove anos eu já comecei a fazer uns pequenos frilas para esta área sem precisar de formação nem nada. Então decidi fazer jornalismo, pois na época, o MTB ainda era exigido para exercer a profissão. Hoje é irônico pensar que este foi meu motivo principal para fazer o curso...
Autor: O blogue Quadrinhos Gonzo relata com humor diversas situações do cotidiano dos jornalistas. De onde surgiu a ideia de fazer uma publicação como esta? Qual a receptividade que ela encontra no meio? Você tem algum retorno desse tipo?
Jussara: Já vi muitos blogs de jornalistas que comentam sobre acontecimentos engraçados da sua profissão em textos diversos e crônicas, e pensei: se eu montar um simples blog e escrever crônicas não será nada novo; irei fazer tirinhas! E assim comecei.
O blog é ainda muito jovem, completou apenas um mês agora, dia 19 de agosto. Tenho recebido elogios de alguns colegas jornalistas, mas por enquanto ele é pequeno. Mesmo com o recente boom de visitas que ocorreu após a divulgação no Portal Terra, posso dizer que o número de leitores regulares deve chegar com dificuldade aos cinqüenta. Afinal, não é uma tirinha que todos entendem.
Autor: Você já trabalhou como estagiária em uma redação. Agora que já está formada pretende seguir carreira como repórter, vivenciando o cotidiano que você retrata em suas tiras?
Jussara: Eu bem que gostaria de exercer minha profissão. Muito! Mas não preciso dizer a vocês que é difícil, não é? Nos anúncios de estágio que eu via por aí havia sempre pré-requisitos absurdos como "experiência anterior" (para um estagiário?!?) ou "possuir carro" e coisas assim. E por remunerações que não pagavam nem a mensalidade da faculdade. Da minha classe de 60 colegas, apenas uns dez estagiavam na área. Os outros trabalhavam em outras áreas, pois se saíssem dos seus empregos para estagiar, não poderiam pagar a faculdade. E formados e sem estágio fica quase impossível conseguir exercer a profissão.
Autor: Seu trabalho ganhou certa repercussão ao ser veiculado no Eu Repórter do Portal Terra. O que acha desse tipo de prática no meio digital, inclusive com uso de fotografias tiradas com câmeras digitais de baixa resolução?
Jussara: Acho que o problema não é a qualidade de imagem, mas qualidade de texto. Tem muito aventureiro ruim metido a jornalista? Tem. Mas também há muito jornalista ruim, formado e com MTB. Por isso a diferença entre um profissional e um amador fica muito relativa.
Acho que ser jornalista não é apenas fazer o curso de quatro anos. É preciso ter uma sensibilidade "artística", digamos assim, para ver os fatos e transformá-los em texto, vídeo ou som (ou os três ao mesmo tempo, graças à internet). E isso é algo que você não aprende em faculdade nenhuma, embora ela ajude um bocado.
Autor: Com a queda da obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão, muitos consideram que a categoria ficou ainda mais fragilizada, sobretudo com relação à regulamentação da profissão. No Congresso tramitam duas Propostas de Emenda Constitucionais para restituir a obrigatoriedade. Uma das discussões neste sentido é que para algumas atividades jornalísticas o diploma já não era obrigatório, como diagramadores, repórter fotográfico e cinematográfico e ilustradores. Alguns querem que o diploma volte e passe a ser extensivo a essas quatro atividades profissionais. Qual a sua opinião a respeito? Considera que o diploma deva ser obrigatório para que os ilustradores, por exemplo, trabalhem em jornais?
Jussara: Existe a matéria "Artes" nos cursos de jornalismo? Então como podem exigir MTB de um ilustrador ou chargista? Existe aula de diagramação nos cursos de jornalismo? Sim, mas ela é muito superficial. Existe, obviamente, aula de fotografia nos cursos de jornalismo, mas geralmente é aquela matéria em que "todo mundo passa", pois para tirar fotos é necessários uma sensibilidade artística inata da pessoa. Entre um sujeito com MTB que não sabe fotografar a própria cara no espelho e um grande fotógrafo sem MTB qual dos dois eu vou preferir?
Aliás, em minha opinião, jornalismo não devia ser uma faculdade, mas uma pós-graduação. Pois os atuais cursos são rasos demais, apressados demais. Eles formam pessoas que sabem escrever matérias estilo "pirâmide invertida", sabem como entoar a voz ao falar numa rádio ou como mexer num “T.P”. quando grava um telejornal... mas não sabem o que fazer com isso! Um jornalista precisa ter uma bagagem de conhecimento muito grande para exercer a profissão, coisa que um curso de quatro anos - concentrado mais nos aspectos técnicos de como deve se fazer notícia - não dá conta.
Como pode um jornalista que sempre tirou notas ruins em História fazer uma matéria especial sobre a Segunda Guerra Mundial? Como é possível um jornalista que não gosta de cinema fazer uma cobertura do Oscar? Pense bem: um Historiador que fizesse uma pós-graduação em Jornalismo não poderia escrever sobre a Segunda Guerra com mais propriedade? Um Cineasta que fez faculdade de Cinema e Jornalismo não poderia fazer a cobertura do Oscar com muito mais inteligência? É mais ou menos isso!