Da Redação
“Designers não substituirão jornalistas competentes, publicitários também não, e muito menos profissionais formados em cursos de Letras, médicos e advogados, com suas visões limitadas – a maioria – e sua total incompetência em relação à linguagem jornalística”.
Para contribuir com nossa discussão sobre o diploma, trazemos hoje a entrevista com o professor doutor da Universidade Estadual Paulista, Unesp, Angelo Sottovia Aranha. Diretor da Assessoria de Comunicação Social da FAAC-Unesp, e orientador dos projetos de extensão em jornalismo comunitário: Jornal do Ferradura, A Voz do Nicéia e Jornal Sorocabana, desenvolvidos pelos alunos da graduação da faculdade.
Em nossa conversa, Angelo fala como foi trilhado o caminho da desregulamentação da profissão de jornalista, da falta de conhecimento e argumento dos juízes, da apatia dos alunos, e da necessidade de mudança dos cursos. A partir de uma análise crítica, conclui que é necessário que os cursos de jornalismo invistam na formação de jornalistas e não sociólogos, escritores, filósofos...
Autor: Como o Sr. recebeu a decisão do Supremo Tribunal Federal de que a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista fere a Constituição Federal?
Angelo Sottovia Aranha: Acompanhei desde o começo esse capítulo da campanha dos empresários pela desregulamentação dos jornalistas profissionais no Brasil. Fiquei surpreso e indignado, seis ou sete anos atrás, quando a juíza Carla Rister apareceu com aquela liminar determinando a desregulamentação baseada em um argumento totalmente incoerente. Ela só confundiu direito à liberdade liberal de expressão com direito social à informação jornalística de boa qualidade. Essa argumentação já denunciava má fé, mas todos demoramos a descobrir que quem havia proposto aquela ação absurda havia sido o sindicato das empresas de rádio e televisão de São Paulo.
Aí tudo foi se esclarecendo. Contra-argumentamos e conseguimos (sindicatos e Fenaj) reverter o efeito da liminar, mas o poder de fogo já estava, como hoje, com quem tinha mais dinheiro. E muito mais dinheiro, tendo em vista que logo em seguida à liminar proposta pela Rister foi rasgada a constituição e aprovada a entrada de capital internacional na imprensa brasileira. Não interessavam aos investidores estrangeiros empresas que dependessem de uma categoria profissional organizada. Tudo muito lógico: profissão desregulamentada, jornalistas sem os seus direitos trabalhistas conquistados, a situação ideal para os investidores estrangeiros comprarem parte das empresas jornalísticas. E foi o que ocorreu.
E agora, nesse último julgamento do STF, os juízes demonstraram total desconhecimento a respeito das particularidades do jornalismo. A juíza, por exemplo, questionou: “quem não gostaria de ler uma notícia sobre medicina escrita por um médico?”, sem ter a mínima noção de que a resposta à sua pergunta é “ninguém”, pois ninguém entenderia a linguagem técnica-acadêmica do médico. Além do que, o médico não levantaria dúvidas sobre prescrições ou procedimentos, não contextualizaria aquele tratamento, etc. Acontece que para se exercer o jornalismo é imprescindível dominar as linguagens, é preciso respeitar o direito à informação do público na hora de escolher as fontes, é preciso formação específica, sim, e mesmo dedicando parte da vida ao estudo das linguagens muitos estudantes de jornalismo concluem seus cursos não entendendo “qual é a dessa tal linguagem”. Assim como os juízes do Supremo, que demonstraram, todos, total desconhecimento sobre a complexidade do processo de comunicação e sobre o poder de influência do jornalismo nesse mundo apressado que sufoca qualquer tentativa de reflexão. A exigência do diploma não fere, de forma alguma, a constituição federal, mas já era esperada essa vitória dos empresários, os mesmos que montaram o lobby que obrigou o presidente Lula a não assinar a autorização para a criação do Conselho Federal de Jornalismo. Esse conselho fortaleceria a categoria e o jogo pela desregulamentação já estava em andamento.
Autor: Qual foi a reação dos alunos? Muitos estudantes em todo o país estão se mobilizando junto com os sindicatos para protestar, e alguns pedem, inclusive a saída do ministro Gilmar Mendes do STF, em Bauru há alguma mobilização? Estão debatendo esta questão?
Sottovia: O que se vê na Unesp é a mesma situação que permeia as demais escolas superiores de jornalismo. A maioria dos estudantes é da classe média e ingressa no curso pensando em uma profissão, em um trabalho que lhes renda algum dinheiro, e não por gostar realmente, por estar informado e com isso entender um pouco melhor nossa sociedade, para mediar os processos de comunicação jornalística. Sendo assim, são poucos e destacam-se os alunos com sangue de jornalista nas veias. O que estou assistindo na universidade reflete bem o desinteresse da maioria pelo jornalismo de boa qualidade. Cada vez mais os estudantes fogem de atividades programadas que exijam esforço para a apuração de informações, que exijam comprometimento com a qualidade do conteúdo e em relação ao cumprimento de cronogramas e deadlines. Sendo assim, o que se vê são estudantes de outros cursos fazendo piadinhas de mau gosto, debochando dos estudantes de jornalismo, numa demonstração de alienação que apenas comprova o vazio característico da geração “Ctrl C / Ctrl V”.
Autor: Como o Sr. vê o futuro? Acredita que seja necessária a regulamentação da profissão? Entende que esta poderia se dar de que maneira? Alguns parlamentares estão apresentando projetos (PEC e PL) para voltar a obrigatoriedade do diploma, considera que esses podem passar pela bancada da mídia?
Sottovia: É difícil prever o futuro, mas acredito que a grande concorrência entre os jornais, revistas, emissoras de rádio e tv e web jornais vai continuar impondo a necessidade de contratação de profissionais competentes, aqueles poucos que levaram a sério os cursos de jornalismo que fizeram. Designers não substituirão jornalistas competentes, publicitários também não, e muito menos profissionais formados em cursos de Letras, médicos e advogados, com suas visões limitadas – a maioria – e sua total incompetência em relação à linguagem jornalística. Sem contar que o trabalho jornalístico é sempre difícil, feito sempre contra o cronômetro e à custa de muito suor. Essa atividade não é para qualquer um, principalmente para aqueles que querem ter espaço nos noticiários apenas quando têm alguma opinião para dar.
Quanto à regulamentação, é necessária para evitar os abusos cada vez mais absurdos da classe patronal. Há muito eles institucionalizaram os PJs [Pessoas Jurídicas], pagam por cinco horas de trabalho e exploram o jornalista 10 horas por dia, sugam o sangue dos profissionais sob o argumento de que o faturamento não permite mais contratações, etc, quando, na verdade, a maioria dos empresários demonstra é incompetência para administrar seus negócios, seus supermercados de notícias. Quando o empresário é incompetente só visualiza a demissão como solução, e não investimentos que melhorariam a qualidade de seus produtos, atrairiam investimentos de patrocinadores e permitiriam o crescimento de suas empresas. De qualquer forma, acredito no fortalecimento dos sindicatos de jornalistas. Se, realmente, aumentar o número de trabalhadores nas redações, com formação em jornalismo, ou não, vai ser maior o número de assalariados maltratados e explorados pelos empresários e a tendência será a união para a garantia do cumprimento de, pelo menos, algumas leis trabalhistas.
Autor: Como fica a profissão a partir de agora? Haverá perda de qualidade no teor das informações, ou pouca diferença será sentida?
Sottovia: Penso que o leitor médio não vá sentir nenhuma diferença, enquanto os trabalhadores da imprensa tiverem apenas que preencher quadros prontos, preparados pelos designers do planejamento gráfico para receberem textos de 1000 caracteres. Esse tipo de diagramação adotado para aumentar ao máximo a produtividade só permite, na maioria das vezes, a redação do lead e consultas às fontes oficiais e permanentes de cada jornal eletrônico, impresso ou online. Além disso, o leitor já vem sendo treinado há algum tempo para aceitar a informação isolada, desvinculada de seus antecedentes históricos, dos jogos políticos que compõem os cenários de todos os fatos ou situações.
Autor: Como ficará o curso? A decisão vem após o debate das diretrizes curriculares proposto pelo MEC, já estão elaborando alguma mudança pedagógica/ curricular?
Sottovia: Quanto aos cursos, com certeza serão reformulados. Os cursos oferecidos por faculdades particulares deverão fechar, imagino, porque poucos pais de estudantes estarão dispostos a gastar R$ 60 mil reais para seus filhos se formaram sem quaisquer garantias.
Já os cursos superiores públicos precisarão ser revistos. O perfil do profissional formado pelas universidades deverá ser claramente diferenciado por uma formação realmente específica. As disciplinas da área de Humanidades continuam a ser importantíssimas, mas o estudante precisa conhecer bem as questões filosóficas realmente relacionadas com a atividade jornalística, precisa estudar antropologia, mas o enfoque da disciplina deve, efetivamente, ser direcionado para o jornalismo, precisa estudar geopolítica, precisa estudar economia, precisa estudar sociologia na sua relação com o jornalismo, etc. O novo projeto pedagógico do curso da FAAC-Unesp será feito no segundo semestre, após a definição das novas diretrizes curriculares. Na verdade, penso que os jornalistas formados deverão brilhar muito mais do que os “precários” nas redações, para que se justifiquem os cursos.
Autor: Considera que haverá menor interesse por parte dos vestibulandos para o curso?
Sottovia: Com certeza, cairá muito a relação candidato/vaga. No entanto, há a probabilidade de prestarem os vestibulares apenas as pessoas com aquela indignação, aquela vocação e aquela curiosidade imprescindíveis ao bom jornalista. Temos que reconhecer que, até hoje, muitos candidatos a sociólogos e não a jornalistas cursaram jornalismo, assim como muitos cineastas, muitos cientistas sociais, escritores e muitos filósofos, mas, a partir de agora, as faculdades terão que formar jornalistas.