Pedro Celso Campos
LIMA, Edvaldo Pereira. “Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura”. 4ª ed., 470p.,R$68,00. Barueri, SP: Manole, 2009.
Solitário diante do computador, na redação apinhada de colegas em franca atividade, preparando-se para escrever a primeira palavra do texto, o jornalista é, antes de tudo, um demiurgo, um criador, tal como dizia Horácio sobre a inspiração dos poetas, na Carta aos Pisões. O autor-artista está diante da sua futura obra como quem está diante do bloco de mármore que vai se transformar no Moisés...
Mas, este momento, em que pese a solidão no burburinho, está relacionado com muitos momentos anteriores, tanto com as recentes tarefas de apuração que tornam agora possível o texto, quanto com as habilidades adquiridas ou aperfeiçoadas no estudo de bons autores, na orientação de bons professores, em anos passados.
É nos bancos das boas universidades e dos bons cursos de especialização que o jornalista vai aperfeiçoar os seus talentos naturais para ser mais que funcionário de uma empresa de comunicação, para ser autor, aquele que cria, que ousa fazer diferente, que não se contenta com mais do mesmo na forma piramidal do quem disse o que, quando, onde, como, porquê...
Além do gosto pela leitura, além da assiduidade à biblioteca, o estudante de jornalismo precisa se deparar com “mentores de criatividade” que ajudam a lançar um outro olhar sobre a produção da reportagem, que não se atém ao ensino da pura técnica que, muitas vezes, pode levar ao mero funcionalismo, à automação, à superficialidade. Os mentores nos ajudam a dar asas à imaginação sem prejuízo do real acontecido, sem falsear a verdade, sem faltar ao compromisso ético da profissão que é o respeito aos fatos e às fontes.
Um dos melhores mentores desse jornalismo criativo, em nosso país, é, sem dúvida, Edvaldo Pereira Lima, professor da ECA-USP e da ABJL – Academia Brasileira de Jornalismo Literário. E a novidade é que a Editora Manole, de São Paulo, acaba de relançar, neste 2009, o clássico “Páginas Ampliadas: O livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura”, agora revisto e ampliado. No estudo atento desse livro, o futuro jornalista aprende que nada está dado, que não existem certezas definitivas, que o todo não é a soma das partes, que o mundo não precisa ser como é, que o antigo paradigma do mundo fechado e terminado da mecânica newtoniana, cede espaço ao novo paradigma das possibilidades, da Teoria Quântica ensinada por Amit Goswami. É o mundo complexo, é a vida como processo, no ensinamento de Edgar Morin. Em oposição ao determinismo da psicologia freudiana, Edvaldo apresenta a liberdade criadora da Psicologia Profunda, de Jung. Recorre aos mitos, com Joseph Campbell, descerrando o herói de mil faces, para exemplificar a criatividade em obras como Guerra nas Estrelas ou em textos memoráveis como os de Trumam Capote, John Reed, Tom Wolfe, Normam Mailer, Joseph Mitchell, Euclides da Cunha, Ernest Hemingway...
Nessa obra o estudante de jornalismo vai conhecer a Teoria Geral dos Sistemas, de Bertalanfy, aprendendo a visualizar o todo, a fazer relações, a ser menos dogmático, a não ser dono da verdade, a respeitar as diferenças, a aceitar o outro para fazer um jornalismo mais humano, na linha da cultura da paz.
Afinal, este livro do Professor Edvaldo é leitura altamente recomendável para todos aqueles que se iniciam nos estudos do jornalismo e também para todos os jornalistas e comunicadores que resolvem incursionar pelo texto mais criativo, diferenciado, com a marca da autoria.
A obra inclui a proposta de “Jornalismo Literário Avançado”, disciplina que Edvaldo introduziu no currículo da pós-graduação da ECA-USP e que atraiu o interesse de destacados profissionais do jornalismo e do livro-reportagem de todo o país.
Levando a sério os ensinamentos dessa obra, o jornalista nunca mais estará só, diante do computador. Como na crônica de João Cabral de Melo Neto, o papel em branco – na verdade a tela do Word – não será o mesmo quando ele se levantar.
E não precisará indagar, mirando a máquina: “Porque não falas?”
Porque o texto dirá tudo.
Pedro Celso Campos, 59, é professor de “Produção Jornalística: Técnicas de Reportagem e Entrevista da UNESP/campus de Bauru. É doutorado em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e fez o pós-doutorado, na mesma área, na Universidade de Sevilha. E-mail: pcampos@faac.unesp.br