Vanessa Silva
A faculdade não deve ser entendida como mero aparato técnico para formar jornalistas. Ela deve ser considerada em suas dimensões: ensino pesquisa e extensão e propiciar aos alunos formação crítica e humana.
Tampouco o diploma pode ser considerado um entrave à liberdade de expressão, quando na verdade, ele é o instrumento que contribui com a fluidez de pensamento de diversas correntes, tendências e colorações políticas. Assim, para garantir a liberdade de expressão, o Supremo deveria ter questionado não o diploma, mas a concentração dos meios de comunicação brasileiros.
A jornalista recém-formada pela Universidade Estadual Paulista, Unesp, integrante do
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Caroline Ferreira da Silva, em entrevista concedida à nossa comunidade, fala sobre a queda da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, desregulamentação da profissão e o futuro da profissão: Confira os melhores momentos da entrevista:
Fim da Obrigatoriedade
Eu recebi com espanto a decisão do Supremo Tribunal Federal, porque sempre achei errado dizer que a obrigatoriedade do diploma fere a isonomia e a liberdade de expressão. Ninguém é proibido de se expressar ou de escrever em jornais. O que existe é uma exigência para se exercer a profissão em sentido estrito e de forma permanente, ou seja, exercer como um profissional que domina técnicas, conhece teorias e estratégias, está inserido dentro de uma classe profissional etc. Logo, não existe um desserviço que prejudica a sociedade e sim uma forma de garantir a qualidade da informação prestada ela.
Liberdade de expressão
Nós, jornalistas, não somos donos da informação, somos mediadores, um canal que organiza, facilita a compreensão do que é comunicado, faz adaptação para os devidos meios, etc. Não é a nossa existência que impede a livre circulação de informações. Acho que se o STF realmente quisesse falar em liberdade de informação, deveria ter considerado que há barreiras maiores a essa liberdade, como a concentração de veículos de comunicação na mão de poucos.
O futuro e o mercado de trabalho
Acredito que grande parte do mercado de jornalismo vai continuar contratando profissionais diplomados. Considerando-se o mercado, o grande problema é a desregulamentação. Como organizar nossa categoria? Como criar um conselho? Se não existe esse tipo de organização, o trabalho do jornalista, assim como o de qualquer profissional, é precarizado, com baixos salários e jornadas de trabalho abusivas que, aliás, são situações comuns em muitas empresas jornalísticas hoje.
A função do jornalismo
Nesse momento devemos lembrar que o compromisso maior do jornalista é com a população, mas nosso maior compromisso é pelo bem-estar das pessoas excluídas da sociedade em que vivemos, é por elas que trabalhamos. Pelo menos, assim deveria ser, mas sabemos que isso está cada vez mais escuso em meio às regras do mercado.
Escolas de jornalismo
Não é porque muitas escolas são fracas que podemos inviabilizar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. A educação brasileira tem sido sucateada nos últimos 20 anos e a melhor saída seria reformulá-la como um todo. Será que é possível abrir mão de uma formação especializada em um contexto educacional vergonhoso como o nosso? E mais, qual o alcance dessa suposta abertura para a expressão pública em um país cheio de desigualdades? Ao que parece, a verdadeira abertura viria com a democratização da informação e, mais importante, com a democratização do conhecimento. (...) Em minha opinião, essa discussão está encarando a universidade como mero curso técnico – com todo meu respeito aos trabalhadores técnicos. Eu, que tive o privilégio de estudar em uma universidade pública, mesmo com tantos problemas, sei que os três pilares (Ensino, Pesquisa e Extensão), se bem aproveitados por professores e/ou alunos, proporcionam uma formação mais do que técnica, proporcionam formação crítica, humana, que vai além do instrumental da profissão, dos jargões etc. Com isso, quero ressaltar o quanto o crescimento profissional e humano é aprimorado de uma forma única pela universidade. Esta, um dos poucos espaços de pensamento e reflexão, lugar cada vez mais necessário, porém, cada vez mais reduzido no nosso mundo de ritmo frenético.
* Alterado às 21:02 para correção de informação