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Ofensiva contra troca de arquivos sinaliza mais agonia de um modelo do que ação com chance de vitória

Marcelo Osakabe (Estagiário da Apijor)

A guerra entre gravadoras e internautas sobre o compartilhamento de músicas ganhou um novo capítulo recentemente. A cantora Lily Allen lidera um punhado de músicos, entre eles membros de bandas como Radiohead, Blur, Kasabian e a brasileira Mundo Livre S.A, que "trocaram de lado": antes defendiam o download e o compartilhamento livre (tendo inclusive feito decolar suas carreiras assim), mas depois ficaram contra a prática, por que ela prejudicaria financeiramente os artistas. "Na verdade, você contrai uma enorme dívida com sua gravadora e passa anos trabalhando para pagá-la. Eu acabei de pagar todo o dinheiro que devia à minha gravadora [EMI]. Tenho sorte de ter tido sucesso e poder devolvê-lo, mas nem todos têm a mesma sorte”, explicou Allen em declaração recente à agência EFE.

O Partido Pirata brasileiro disse em entrevista ao Portal do Autor, que o compartilhamento de arquivos não é o que tira a renda dos artistas. "Os músicos em geral não vivem de venda de CDs ou músicas online. O valor que arrecadam com isso é irrisório. Basta calcular, por exemplo, as tiragens e CDs e calcular um valor em torno dos 5% a 10% do valor cobrado na loja. O artista ganha principalmente com performances. Além disso, ganha em execuções em rádios comerciais, TVs, eventos, vinhetas publicitárias e assim por diante". Segundo eles, a venda de CDs é principalmente para divulgação da obra. "E isso" - garantem - "a Internet faz muito melhor".

"Eu, como compositora, disponibilizo minhas obras para download, pois é uma forma de fazer meu trabalho circular e alcançar um público que jamais alcançaria se eu esperasse uma “oportunidade” via sistema convencional das gravadoras. Amplio assim minhas possibilidades de realizar shows, conquistar público e fãs, firmar parcerias e todo tipo de produção artística. Sou a favor da livre circulação das obras, de forma gratuita, no meio virtual para o consumo individual" - afirma Patrícia Mello, cantora e compositora de Porto Alegre, em seu artigo (clique aqui para ler).

Patrícia, que também é estudante de Direito e interessada no tema direito autoral (integra a comunidade do Portal do Autor - www.portaldoautor.org.br), só é contra os que falsificam os discos e vendem "aos quilos" pelas esquinas. "Esses sim, para mim, são os verdadeiros “piratas” e merecem ser combatidos duramente. Esta é uma prática ilícita que repudio", diz.

Para os dois consultados, o que está acontecendo é que a internet e o compartilhamento estão criando um contraponto ao atual modelo de negócio da indústria fonográfica, o que está provocando toda esta chiadeira. No entanto, enquanto no modelo da indústria prevalece o "jabá" ou a escolha, de cima para baixo, do que vai e o que não vai fazer sucesso (ou o que merece e o que não merece investimento), no modelo de compartilhamento há uma liberdade de escolha, cada um está livre para ouvir e "degustar" o que quiser, sem ter que pagar por isso. "Essa liberdade não havia no velho sistema. Isso também incomoda a indústria cultural", dizem os piratas.

"Vira-casaca"

Sobre Lilly Allen e outros artistas que defendem esse velho modelo, a resposta do Partido Pirata está na ponta da língua: "De fato, eles podem influenciar a opinião pública e ajudar a convencer políticos sobre a necessidade de defender as perdas da indústria, em termos de mercado ou empregos. No entanto, isso não considera as inúmeras oportunidades que a internet gerou, em termos de milhares de micronegócios, de novas bandas que agora se tornaram conhecidas e começam a fazer shows. Ao contrário de uma crise, observa-se uma explosão criativa com a internet. As bandas não deixaram de tocar, não se deixou de criar. O que houve foi uma enorme desconcentração na produção cultural e artística. Isso é altamente positivo para público, para a cultura e para o conjunto dos artistas. Obviamente que isso afeta os interesses da velha indústria, baseada na produção fordista de CDs e no monopólio da informação".

Patrícia Mello considera que muitos artistas são induzidos pelas suas gravadoras a levantarem essa bandeira, mas que os reais beneficiados são minoria no universo dos artistas. E aproveita para alfinetar o Ecad (Escritório Central de Arrecadação, responsável pelo recolhimento de direitos autorais na área de música no país), afirmando que o órgão tem sérios problemas com seus critérios de arrecadação e fiscalização (ele se auto-fiscaliza desde o governo Collor) e, como resultado, somente os que têm mais sucesso conseguem receber seus direitos, pois as grandes gravadoras fazem marcação cerrada. "Mas quantos 'Robertos Carlos', 'Ivetes Sangalo' e 'Zézés de Camargo' existem no Brasil?" - questiona.

Fim do modelo único

Num debate sobre as transformações que a indústria da música enfrenta com a chegada da troca de arquivos, o cantor, compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil cravou: "O problema é que vocês (artistas) querem que apareça outro modelo único, que não vai exigir esforço algum e te traga o sono de volta". Gil participava do evento "Cibercultura 10 + 10", que aconteceu em Santos nos dias 1 e 2 de outubro. O evento foi organizado para comemorar os dez anos da tradução do livro "Cibercultura", do canadense Pierre Lévy, pensador entusiasta da mídia digital e do conceito de rede.

O ex-ministro chamou a atenção para o fato de que não existe mais um modelo único de música, mas as possibilidades estão em algo que envolva o modelo do iTunes, micro-pagamentos e outras coisas. E já tem gente pensando nisso, como o brasileiro Sérgio Amadeu, sociólogo e doutor em ciência política da Universidade de São Paulo (clique ler seu e-book O futuro da música depois da morte do CD), e o alemão Gerd Leonhard, autor de livros como The Future Of Music e Music 2.0. “Para começar, a indústria deveria concordar em dividir uma porcentagem da sua receita com provedores, empresas de internet, de telecomunicações, de celulares, etc. Oferecer a música junto de outros produtos e serviços. Esse é um modelo muito poderoso, que vem sendo testado em todo o mundo, como por exemplo, o Google na China e os celulares no Brasil”, conta Leonhard, em uma entrevista ao caderno Link/Estado de S. Paulo.

Isso, de alguma forma, também foi percebido pelos executivos das grandes companhias, como revela esta matéria do Link, ao lembrar que os artistas de 1877 também não gostaram da invenção do gramofone. Temiam perder sua principal fonte de renda: as apresentações. Não foi o que aconteceu.

palavras-chaves: compartilhamento, música, pirataria

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