Acabamos de abrir mais este grupo temático aqui na Comunidade Portal do Autor. Destina-se aos debates sobre a profissão. O nome – Jornalismo/Jornalistas –, assim como o texto que o descreve inicialmente, estão sujeitos a mudanças, a partir de sugestões dos participantes.
Trava-se nos nossos dias um intenso debate sobre o futuro dos jornais impressos, do jornalismo e dos jornalistas enquanto profissionais. Há muitos textos publicados sobre essas questões.
Uma dessas notícias, publicada no Observatório da Imprensa em 20 de fevereiro, parte da redução do número de jornalistas na imprensa estadunidense (de 52 mil em janeiro de 2008 para 44,2 mil em fevereiro/2009) para apontar a enorme dificuldade que terão as empresas jornalísticas naquele país em manter grandes redações com jornalistas bem pagos e da nova realidade criada com a “sociedade digital”. Com base nesses fatos e previsão, o professor e consultor Clay Shirky (“Here Comes Everybody”, título aportuguesado para “Aí vem o qualquer um ...”) escreveu que “os jornalistas têm um grande desafio não apenas no que tange ao seu trato com as empresas de comunicação, mas principalmente na sua relação com a informação (...), com o fim das grandes redações e a perda da exclusividade na publicação de notícias”. Consequentemente, o jornalismo tenderia a ser cada vez menos uma profissão, como a medicina ou a engenharia”.
Mas, para os mais catastrofistas, atenção: segundo o autor da matéira no Observatório, o jornalista Carlos Castilho, o ”que se está sinalizando não é o fim dos jornalistas, mas a mudança em sua função que passará a ser social não estará mais atrelada obrigatoriamente às empresas de comunicação, uma vez que ele não é mais rentável às coorporações como fora em um passado recente”.
Quero acrescentar aqui um ponto de vista sobre essa questão e, dessa forma, abrir o debate no nosso grupo.
No entanto, é importante ressaltar que outros debates podem ser abertos no mesmo grupo. Vai do interesse dos participantes.
Boa sorte para nós.
Sujeitos e não vítimas
Antes de mais nada, é preciso que nós jornalistas tenhamos uma intervenção na realidade enquanto categoria profissional organizada, analisando a situação, estudando medidas que possam ser tomadas e colocando-as em prática. Agindo assim não seremos meras vítimas do jogo das forças do mercado e da evolução social e tecnológica.
Uma das coisas que devemos fazer é trabalhar para tornar conhecidas do público as características do jornalismo que o diferenciam de trabalho feito por um cidadão que não tenha sido preparado para o exercício dessa profissão (a necessidade de checar as informações; guiar-se por pocedimentos éticos na apuração e na divulgação das matérias jornalísticas; criticar as injustiças; fiscalizar a atuação dlos governantes e do poder público em geral, entre outras características).
É preciso constatar, também, que na vida real muitas vezes essas características não se realizam, seja devido às interferências das empresas, de anunciantes, dos governos, do chamado crime organizado, seja porque o próprio profissional abriu mão de fazer frente às pressões e se adaptou a uma prática profissional que é qualquer coisa menos jornalismo.
Pois aí está nosso desafio: fazer um trabalho jornalístico com autonomia, subordinado principalmente ao código de ética e à consciência do profissional.
A necessidade de organizações fortes
Para diminuir as interferências dos proprietários dos meios, do Estado e de anunciantes, para citar apenas algumas forças presentes, é preciso que o jornalista esteja fortemente organizado. Por isso formulei, há cerca de 10 anos, quando debatíamos essas questões em um encontro em Goiânia, a teoria do tripé.
Os jornalistas precisam estar organizados em três diferentes instâncias: primeiro, até por uma questão histórica, em seus sindicatos e na Federação Nacional, como entidades fortes. Um dos caminhos possíveis é o da criação de um Sindicato nacional da classe.
Segundo, em um organismo associativo que cuide dos direitos autorais, exigência da legislação brasileira, que está se concretizando na Apijor. Apesar de existir desde 2001, agora é que estão sendo dados passos mais decisivos no sentido da consolidação da entidade, com a criação do Portal do Autor e o lançamento de alguns serviços que estão no forno, para breve.
Falta a terceira perna deste tripé, que tentamos organizar a partir de 2004, com a proposta do Conselho Federal dos Jornalistas, mais voltado para as questões do exercício profissional – incluindo a defesa da autonomia de trabalho do jornalista - e da observância à ética.
Certamente essas três formas de organização não excluem outras. Aliás, temos hoje uma grande quantidades de organizações setoriais, inclusive no ambiente acadêmico, o que só tem fortalecido a luta dos jornalistas. Não podemos esquecer a importância de uma atuação sistemática no ambiente dos cursos de jornalismo, entre professores e estudantes, pois é lá que efetivamente estão sendo formados os futuros profissionais.
Mas, voltando à colocação inicial, sobreviveremos a mais esta crise para podermos continuar a luta?
Fazer valer a regulamentação
Para todo o lado que se olhe há ameaças importantes. A mais recente são as demissões resultantes da crise mundial. No entanto, alguns séculos depois do surgimento do jornalismo e 40 anos depois da regulamentação da profissão no Brasil, o que podemos visualizar de imediato não é o desaparecimento da profissão, mas a necessidade de buscar solucionar problemas que foram sendo deixados de lado enquanto lutávamos para manter a regulamentação.
A primeira está justamente nessa questão: é preciso buscar uma solução que permita fazer valer a regulamentação de tal forma que tenhamos um poder de intervenção real no mercado de trabalho. Hoje, alguns anos depois da decisão da juíza Carla Rister, em 2001, estamos vivendo uma absoluta precariedade nos grandes mercados de trabalho dos jornalistas. Será que ficar aguardando o julgamento da ação no Supremo é o melhor que podemos fazer?
Simultaneamente, é preciso recolocar o debate sobre a organização do nosso Conselho Profissional. Na organização do nosso último congresso nacional, em São Paulo, perdemos uma oportunidade para retomarmos o tema. Pois que seja retomado o quanto antes, de preferência sob a liderança da federação e dos sindicatos.
Também não podemos deixar de entrar no debate que se trava em vários países sobre a necessidade de auxílio governamental aos veículos de imprensa, especialmente aos jornais diários. Aqui no Brasil este debate já ocorreu, quando os jornais formularam um pedido de ajuda ao BNDES. Na ocasião, a FENAJ e os sindicatos assumiram posição semelhante à que está sendo assumida agora pelos jornalistas espanhóis quando a Associação das empresas editoras de jornais diários naquele país dirigiu-se ao governo pedindo ajuda para os jornais, alegando que estes seriam a garantia da existência de um sociedade pluralista (ver Para jornalistas espanhóis, ajuda a jornais exige contrapartidas, Boletim no. 23, de 3/3/2009).
Não sei se os donos dos jornais vão voltar ao tema por aqui. De qualquer forma, discute-se se os mercados de anúncios e de classificados serão suficientes para garantir as receitas para a manutenção dos veículos e, ainda por cima, do lucro dos proprietários e/ou acionistas.
Nos EUA, há propostas de que as empresas jornalísticas sejam transformadas em fundações, que poderiam receber doações públicas e privadas. Outra proposta é que as empresas jornalísticas passem a cobrar por acesso a cada matéria em suas versões na internet, os chamados micropagamento (a cobrança de alguns centavos por acesso individual), como forma de compensar a perda das receitas publicitárias na versão impressa.
O que parece que faz falta é uma atuação mais presente das organizações dos jornalistas no debate. Na verdade, mais do que isso, é preciso que essas organizações encontrem, entre os próprios jornalistas, um apoio mais firme e decidido, lá como cá.
Portanto, voltamos ao ponto inicial, e falando agora do Brasil: o que fazer para fortalecer as nossas entidades de jornalistas?
Parece que a resposta (ou as respostas) a essa pergunta estão na base de qualquer iniciativa que possa ser tomada do ponto de vista do jornalista como um sujeito coletivo.Espero, com este texto, ter apontado alguns temas para iniciarmos um debate neste grupo. Não tenho a pretensão de trazer soluções para problemas que, além de serem coletivos, são bastante complexos e exigem o amadurecimento da idéias e da própria organização dos jornalistas.
Sendo assim, vamos ao debate? Quem sabe consigamos levantar algumas idéias que possam ajudar os jornalistas brasileiros a dar passos adiante rumo à sua reorganização e ao seu fortalecimento.
Fred Ghedini, 4 de março de 2009.