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Adalberto Diniz, fotojornalista e secretário da Apijor

A mais famosa dupla de repórteres a atuar na imprensa brasileira,
sem dúvida, foi formada por Jean Manzon e David Nasser que
trabalharam na revista O CRUZEIRO de 1943 a 1951.

As primeiras matérias da histórica parceria mostraram bem sucedidas
experiências do governo Vargas na criação de uma escola de pesca,
publicada em novembro de 1943, e matéria intitulada “Os loucos são
felizes”, esta última resultado de 11 horas de visita ao Hospital
Nacional dos Alienados, no Rio.

O sucesso da dupla inaugurou um novo padrão que marcaria
definitivamente a imprensa brasileira e inspirou a criação de
muitas outras duplas, como: José Medeiros e José Leal; Eugênio
Silva e Arlindo Silva; Jorge Ferreira e Henri Ballot; Luis Carlos
Barreto e Indalécio Wanderley.

Com perfil muito distinto de Manzon atuaram na revista O CRUZEIRO,
dentre muitos outros os profissionais do fotojornalismo: Luciano
Carneiro, Geraldo Viola, Fernando Seixas, Helio Passos, Roberto
Maia, Aymoré Marella, Peter Sheier, Edgar Medina, Salomão Scliar,
Marcel Gautherot, Pierre Verger, Lutero Ávila, Badaró Braga, Zé
Pinto e Ed Keffel.

Da França direto para o DIP

O fotojornalista e cinegrafista Jean Manzon era francês e, apesar
da pouca idade, adquiriu larga experiência profissional em algumas
das mais importantes revistas ilustradas européias. Entre outras
chegou a trabalhar para VU, Match e Paris Soir. Cobriu
grandes acontecimentos históricos como a guerra Civil
Espanhola.

Veio para o Brasil estimulado pelo brasileiro Alberto Cavalcanti,
então diretor de cinema e documentários dos serviços
cinematográficos do Exército Inglês, a quem Jean confessou sua
desilusão depois de receber um redondo ‘não’ do general De Gaulle,
ao tentar integrar a resistência francesa. “Precisamos de soltados
para a infantaria e não de fotógrafos”, teria respondido o
general.

Cavalcanti recomendou-o então à poetisa Adalgisa Néri, mulher de
Lourival Fontes – o todo poderoso diretor do DIP (Departamento de
Imprensa e Propaganda), criado em 17 de dezembro de 1939 e extinto
em 25 abril de 1945, com a função de fiscalizar (e censurar) todos
os órgãos de imprensa no território brasileiro ¹.

No DIP, Manzon organizou o sistema de captação de imagens oficiais
construindo um verdadeiro patrimônio visual do país. Mas não
demorou a voltar para a imprensa periódica, a convite de Freddy
Chateaubriand – sobrinho de Assis Chateaubriand que assumira a
revista O CRUZEIRO.

Manzon foi logo introduzindo mudanças radicais na revista, com base
em conceitos modernos marcados por manchetes de realce, com muitas
fotografias de impacto. Deu destaque à diagramação e, devido à
carta branca recebida de Chateaubriand, intrometeu-se na gráfica
brigando constantemente com os responsáveis pelas rotativas. Até
descobrir que o problema da falta de qualidade na impressão final
era resultante da má qualidade das tintas e não poderia ser
atribuída a outros fatores.

Jean confessa que ao chegar à revista “o panorama era desolador.
Não parecia uma revista, era um catálogo, uma galeria de retratos
de família, fixos, posados, idênticos”. Adaptou o texto de Michel
Montaigne que dizia Je ne fais rien sans gaiaté (Não faço nada sem
alegria) para “Je ne fais rien sans beauté (Não faço nada sem
beleza), lema que vivia repetindo.

A dupla com Nasser

A necessidade de formar uma dupla apareceu logo. Jean sentia falta
de um parceiro de “peso” e constante. Lembrou-se da David Nasser
que conhecera durante matéria na Amazônia. Feito o convite, foi
imediatamente aceito. Os dois começaram a trabalhar. Para Nasser
foi uma volta, pois começara como contínuo nos Diários Associados e
depois foi para o Globo, como repórter.

David Nasser era filho de imigrantes libaneses. Autor de vários
livros, dentre eles O velho capitão, dedicado a Assis
Chateuabriand, e Outras histórias. Parceiro de consagrados
compositores da MPB cujas canções eram interpretadas por alguns dos
mais importantes cantores, como Francisco Alves e Silvio Caldas,
entre outros, na verdade era uma figura controvertida.

Seu biógrafo, o jornalista Luiz Maklouf de Carvalho, na obra
intitulada Cobras criadas, diz ter procurado mostrar como
Nasser usou o jornalismo em proveito próprio. O livro conta a
participação dele no golpe de 64 e sua relação com o Esquadrão da
Morte, grupo de extermínio que teve envolvimento com o tráfico e
que foi muito forte durante a ditadura, tenso sido integrado por
policiais que participavam da repressão política. Nasser chegou a
ser presidente de honra do Esquadrão, o que diz muito sobre sua
ideologia.

Juntos, Jean e Nasser implantaram a ”era das grandes reportagens”.
Muitas tiveram repercussão inesperada. Entre elas, a da edição de
junho de 1944, quando em vinte páginas mostrava-se pela primeira
vez a intimidade dos índios xavantes. Mas em termos de repercussão,
uma das recordistas foi estampada nas onze paginas com texto
“arrasador” de Nasser e fotografias “chocantes” de Jean: o deputado
Barreto Pinto (Edmundo), posando de fraque e de cuecas, sob o
título “Sem máscara”.

A proeza resultou na cassação do deputado por quebra de decoro
parlamentar. A primeira na história política do país. Inconformado,
o parlamentar tentava se justificar dizendo que tudo não passara de
uma “armação” do turco (Nasser), do gringo (Manzon) e do mestre da
conspiração política, Assis Chateaubriand. “Eles me garantiram que
a fotografia seria feita só da cintura para cima”,
justificou-se.

Na época, o que dava na imprensa era inquestionável. Se estava
impresso, era verdade. Por isso existia grande espaço para a
fabricação, a misificação jornalística. Juntando-se isso com o
‘outro lado’, ou seja, para David Nasser os fatos não eram
importantes e sim a criatividade, é possível fazermos uma idéia de
como era o ambiente da imprensa e a relação que se estabelecia
entre esta e a sociedade naqueles tempos.

Nasser inventava coisas para valorizar as reportagens. Segundo
Maklouf ², foi o Manzon que ensinou isso a ele. O ex-diretor de
redação do Grupo diário Associados, Accioly Neto, na obra O
império de papel
, escreveu que Jean era um esteta (...) achava
que a realidade deve ser transformada em obra de arte para agradar
o público. Exatidão não era, de fato, o forte do ofício naqueles
anos.

“Naquele tempo ninguém fazia reportagens no sentido literal da
palavra”, afirmou David Nasser, em entrevista concedida à revista
Manchete em 1965.

Contudo, há registros de outras duplas famosas de jornalistas bem
antes de Jean e Nasser. Segundo leciona Joaquim Marçal Ferreira de
Andrade ³, nos primórdios da imprensa brasileira, no final dos anos
1870, o periódico O Besouro, um jornal ilustrado, deslocou
José do Patrocínio e J.A. Corrêa (Joaquim Antonio)para a cobertura
de uma grande seca no Ceará. Mas, como o Raphael Bordalo Pinheiro,
dono do jornal foi o desenhista, acabou não ficando claro se este
teria sido o autor apenas dos desenhos ou também dos daguerreótipos
4.

1 - Silvana Goulart, Sob a verdade oficial; Nilson Lage,
Cinco séculos de censura: história dos jornais e Nelson
Werneck Sodré, A história da imprensa brasileira.

2 - Luiz Maklouf de Carvalho, Cobras criadas.

3 - Joaquim Marçal Ferreira da Andrade, A historia da
fotorreportagem no Brasil: a fotografia na imprensa do Rio de
Janeiro de 1839 a 1900
.

4 - Só com o aperfeiçoamento da foto mecânica foi que o Canadian
Illustrated News
pode estampar, no dia 30 de outubro de 1869, a
primeira fotografia impressa pelo processo tipográfico. O sistema
empregado até então era oneroso e nada prático. Em 1880, o New
York Daily Graphic
, empregando o processo de meios-tons
estereotipados descoberto por S.H.Horgan, inicia a fase
propriamente dita do foto jornalismo. Antes disso o que se
utilizava era o daguerreótipo, imagem captada com uma máquina e
fixada em uma base metálica mas que não tinha como ser transferida
para a impressão. Uma lâmina de prata metálica (fundida a uma placa
de bronze), que, pela ação do vapor de iodo, formava uma superfície
fotossensível de iodeto de prata. Era uma peça única que não
permitia a tiragem de cópias. Era uma imagem positiva que
necessitava ser apreciada em condições de luz adequadas. Portanto,
os jornais publicavam imagens desenhadas à mão livre por
repórteres-desenhistas que se utilizavam da xilogravura para
imprimir imagens. Valia, então, a credibilidade do desenhista. Os
textos eram impressos tipograficamente.

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