Estação Arthur Alvim.
Contra o avanço ruidoso do trem nos trilhos, milhares de pessoas entravam, era como se os vários murmurinhos gritassem, dava pra sentir a respiração e o pensamento daqueles trabalhadores. Como malabaristas caminhavam e se mantinham em pé com uma eficiência quase que inacreditável naqueles vagões lotados. Parece ser impossível que eles consigam se acomodar. Toca o sinal, indicando que as portas vão se fechar, Dona Rosângela, após dar um grande impulso, pula e consegue entrar, Caio já estava acomodado.
As pessoas acotovelam-se, tentam dar passagem, mas é mesmo bem difícil. Banco Cinza. Caio sorri, seus olhos brilham diante daquela movimentação. Ainda escuro quando saem, já está claro quando chegam no Brás. Grande desafio pela frente: baldeação. Trem sentido Rio Grande da Serra, destino Moóca.
Gentilmente, o funcionário do trem sorri e abre a passagem que fica na lateral das catracas. “Já vai campeão?” - brinca. Rosângela agradece, Caio está inquieto.
Dona Rosângela cumprimenta o motorista, que pega Caio no colo, fecha a sua cadeira de rodas e, finalmente, estão próximos, chegando a mais uma consulta de rotina. O garoto não podia perder a hora, caso contrário, poderia ficar até um ano para marcar outro pneumologista.
A viagem de quase duas horas, é mais tranqüila na volta. Uns vinte minutos depois da Estação Arthur Alvim chegam - estão próximo ao Conjunto Habitacional Águia de Haia. Rosângela dá uma olhadinha pela janela da casa da frente, acena para uma velhinha. Sua sogra de 89 anos. Já nos fundos, entra em sua casa que possui quatro cômodos.
“Saúde em primeiro lugar!” enfatiza Dona Rosângela. “Mesmo fazendo tudo isso Caio tem alguns probleminhas, ele tá agora com o quadril luxado. Isso porque cuidamos, imagina se não fizéssemos nada? Isso é de não andar, ficar só deitado, é normal.” – explica.
Entre olhar sua sogra, vítima de um derrame, cuidar da casa e de Caio, Rosângela Lima dos Santos é voluntária da Associação Beneficente Esporte, Cultura e Lazer Nosso Sonho. “Ajudo fazendo de tudo um pouco” – conta Rô, como é conhecida por todos, quebrando o gelo e iniciando uma boa conversa que, facilmente, durariam horas, se ela não tivesse uma vida tão corrida.
Como representante das mães de crianças portadoras de necessidades especiais, trabalha de ajudante de limpeza a assistente de reuniões. “Conheço a Dona Socorro [fundadora da associação] há dez anos, entrei aqui com a intenção de conseguir algo melhor para o meu filho, mais depois vi que me sentia bem em ajudar as pessoas. Isso aqui para mim é tudo (...) para você ter uma noção quando ela [Dona Socorro] me falou da idéia de criar um espaço para crianças especiais nada aqui existia, eu vi a construção tijolo por tijolo.” – ressalta.
O espaço em que conversamos, e de que fala Rosângela, é o CRIS – Centro de Reabilitação para a Inclusão Social Nosso Sonho. A sede do Centro foi construída em 2006, com o apoio de um grupo de empresários do Setor Automotivo da Zona Norte, e até junho de 2007, atendia 134 pessoas com deficiência (entre adultos e crianças) nas áreas de fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, assistência social, psicologia e pedagogia.
Com o fim da parceria, as atividades pararam, e a associação aguarda um convênio com a prefeitura para retomar os trabalhos. Para Rosângela o CRIS significa uma melhora significativa na qualidade de vida de seu filho: “Ia ser maravilhoso, porque nessas entidades, como a que o Caio vai, ou você faz fisioterapia ou fonoaudiologia, não dá para fazer tudo ao mesmo tempo. Por quê? É muita gente. Além do que, eles não trabalham com a mesma criança por muitos anos, as filas de espera são enormes, e o Caio é uma criança lenta, a médica já me disse que ele é para sempre.”.
A história de Rosângela se repete, na Cohab Águia de Haia, com mais 178 famílias que possuem pessoas portadoras de necessidades especiais. Se não tem que ir até a AACD da Moóca, vão à do Centro, ou em alguns casos são atendidos em Ermelino Matarazzo na Associação da Casa dos Deficientes de Ermelino Matarazzo (ACDEM). A melhor opção para Caio, que faz fisioterapia nessa instituição e é levado para lá pelo ATENDE, transporte especial da prefeitura.
Com muita paciência, após uma prolongada respiração, Rosângela comentou que a espera é de até um mês para inclusão neste serviço e, em função disto, o transporte leva para escola ou consultas. No caso de Caio, a perua leva até a ACDEM e o resto fica por conta de sua mãe. Como por exemplo, a sua locomoção até a creche do bairro, a alguns minutos de sua casa.
Aliás, esta vaga na escola foi uma das vitórias desta família, que vive com o salário mínimo de Caio e por meio da ajuda de amigos, como Dona Socorro – o marido de Rosângela é tapeceiro e está desempregado há dois anos.
Apesar de ter 16 anos, Caio é pequeno, tem o tamanho de um garoto de oito anos, isso ajuda no seu relacionamento com as outras crianças de sua sala. Lá, a briga é pra ver quem vai brincar com ele.
Acompanhando tudo atentamente, não dá nem tempo de sentir saudades da mamãe, já que na hora do intervalo, todos os dias, Rosângela volta à escola para alimentar o menino. “Eu sei que aqui é o básico, mas é o melhor, as crianças o adoram e ele fica muito feliz! Ele é comportado, fica quietinho lá no canto da sala.”. Ela comenta que nem todas as escolas funcionam dessa maneira, muitas de suas amigas com filhos especiais não precisam retornar à creche durante o dia e a criança é atendida individualmente. Por fim, desabafa “sei que no meu caso não é assim, e também que as professoras não estão lá para isso, mas penso que não custava ajudar?”.
Levei comigo a imagem daquela mulher e de seu filho no longo caminho de volta para casa... A minha sensação de impotência martelava... E a seguinte frase de Rosângela ressoava em minha cabeça: “Eu sei que se largar ele amanhã ou depois, ele vai atrofiar todinho, e entre ver meu filho atrofiar ou falar, porque eu sei que ele conseguiria se tivesse atendimento, prefiro que ele não atrofie, mas sei que não precisava ser assim. E é por isso que devemos lutar!”
Exibições: 2
palavras-chaves: comunitário, deficiência, física, jornalismo, luta, saúde
Comentar
Comentário de Juliane Cintra de Oliveira em 12 maio 2010 às 14:19
Comentário de Fred Ghedini em 12 maio 2010 às 12:02 Bem-vindo a
Portal do Autor
© 2012 Criado por Portal do Autor.
Ativado por
Você precisa ser um membro de Portal do Autor para adicionar comentários!
Entrar em Portal do Autor