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Com os pés aqui, no que foi a Fazenda Duas Pontes, com origem em sesmarias formadas no último lustro do século XVIII, não se pode furtar a oportunidade de uma reflexão sobre o significado profundo que evoca o que resta desse acervo histórico, uma reflexão sobre nós mesmos.
De um lado a ocupação predatória de nosso território. Iniciada com a caça aos índios, a derrubada das matas e saqueio das riquezas naturais, seguido da indignidade escravagista e a continuidade do genocídio contra os naturais da terra.
Nossas fronteiras agrícolas de hoje se expandem tal qual as sesmarias do passado. Se antes eram concessões da corte, hoje impera a grilagem. O que mudou? Tecnificaram a preda dando-lhe mais eficácia. Blairo Magi (5% da soja brasileira) personifica o Domingos Jorge Velho dos tempos modernos.
Nossos morros cercados por tropas, nossos acampamentos de sem-terras, nossas periferias marginalizadas são nossos modernos quilombos. E não é que ainda temos quilombos, que ainda temos trabalho escravo a moda antiga?

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, senhor Deus!
Se é loucura...Se é verdade
Tanto horror perante os céus?!


São versos que revelam profunda indignação. Castro Alves morreu com apenas 24 anos sem ter realizado o sonho de ver os escravos libertos. Mas seus versos inspiraram mais de uma geração de jovens indignados que protagonizaram o movimento abolicionista em São Paulo com projeções por todo o país.
Indignação que falta a nossos jovens de hoje. Essa capacidade de indignar-se ausente nos jornalistas de hoje. Falta-nos, hoje, um Luis Gama, baiano, filho de mãe escrava, ele mesmo um escravo fugitivo que adotou São Paulo como morada onde se fez poeta e jornalista e assumiu a liderança do movimento abolicionista. Luis Gama criou o Diabo Coxo, em 1864, primeiro jornal humorístico na história do nosso jornalismo impresso. Merece ser lembrado e homenageado.
Essa mesma indignação movia outro jovem também filho de negra, Antonio Bento, que lutou ao lado de Luis Gama e o sucedeu no movimento abolicionista do partido republicano paulista. Bento foi o fundador do movimento caifases, envolvendo maçons ricos, que estimulava e armava os negros a lutarem contra os escravagistas.
Negros de espírito rebelde e libertário como José do Patrocínio, filho também de escrava, jornalista que foi grande impulsionador do movimento abolicionista no Rio de Janeiro. E tantos outros exemplos de coragem e capacidade de trabalho a quem devemos a consciência que tornou irreversível o momento abolicionista.
Porque falar dessas coisas num encontro de jornalistas onde o objetivo é discutir problemas corporativos?
Penso que o bom jornalista tem que ter consciência de pátria, e isso só se adquire com o conhecimento profundo de nossa história. Acredito que o bom jornalista conhece e cultua os heróis que forjaram nossa história. Estou convencido de que só com o pé na história se pode entender o presente, enxergar e construir o futuro.
Outro dia, em reunião da executiva ampliada da Fenaj, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, aceitava-se que com tantos bons quadros que temos deveríamos ter uma atuação que nos projetasse como a OAB do século XXI. Para isso temos que reconquistar a auto-estima maculada por recentes derrotas.
O caminho é ter uma atuação como a dos bons jornalistas de todos os tempos. Uma atuação como a de Luis Gama, de Antonio Bento, de Líbero Badaró, de Wlado Herzog, Mário Alves e tantos outros. Podemos e devemos ser os jornalistas do século XXI. Basta que evidenciemos nossa capacidade de indignar-se.
Os jornalistas de hoje ocuparão um lugar na história se se organizarem e seguindo o exemplo de Luis Gama e Antonio Bento iniciarem um segundo movimento abolicionista. Movimento para abolir a miséria, para abolir as desigualdades, abolir o preconceito, a prepotência.
Somos autores e deveríamos ser respeitados como autores. No entanto, se nem nós mesmos nos reconhecemos como autores, como ser respeitados pelos demais?
Seremos reconhecidos e respeitados como autores se engajados na mais árdua das batalhas abolicionistas de nosso tempo, a luta pela abolição da servidão intelectual.
Eis ai o desafio para os jornalistas organizados. Vamos erguer a bandeira de luta pelo império da ética e levá-la a todos os espaços sociais. Não vamos deixar acontecimento algum sem que estejamos lá com nossa bandeira de luta libertária, apoiando, mobilizando, dando conteúdo.
Obrigado,

Paulo Cannabrava Filho
Campinas, 10 de março de 2007
Contribuição à Mesa Redonda “Assessores de Comunicação e sua Contribuição para a Disseminação da Cultura da Paz”, no XXI Encontro Estadual de Jornalistas em Assessoria de Comunicação.

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